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O Confisco das Férias e a Sobrecarga Docente

As tradicionais férias de julho dos professores do ensino básico, tão necessárias à recarga de energias destes trabalhadores exauridos pelas rotinas maçantes de sua profissão, encontram-se sob ameaça em Florianópolis e por todo o país. Nos aproximamos do fim do mês, mas sob a justificativa da pandemia, o governo Loureiro se recusa a conceder as férias que já deveriam estar em vigor, afirmando que estas teriam sido gozadas no início da pandemia. Ora, nada mais equívoco que isso: os trabalhadores da educação, assim como todos os outros, passaram o início da pandemia apreensivos, tensos, sem descanso real e ainda pressionados para o preparo do EaD que agora lhes tira o sono diuturnamente.

Apesar de já estarem um pouco mais amortecidos ao massacre do EaD, os professores se encontram ainda sob condições lamentáveis. O setor da educação é um dos grandes eixos de propaganda para a instalação de um “novo normal”, entretanto, o que se coloca é a agudização das condições insalubres de trabalho: professores online 24 h por dia, lidando com funções para as quais não foram contratados, vendo seus escassos auxílios e direitos de progressão cortados, arcando com os aumentos de suas contas domésticas, decepcionados com a nítida queda na qualidade da educação.

Em Florianópolis, tal situação é ainda pior pelo nível prévio de deterioração da carreira. Vergonha nacional: 52,3% dos contratos municipais não são de concursados, enquanto para os estaduais este número aumenta para 69,9% em Florianópolis. A “Escola do Futuro” propagandeada por Gean Loureiro, portanto, é uma escola de professores sem saber o que comerão no dia seguinte, como ocorre agora com os contratados ACTs que desde maio não foram convocados e seguem sem qualquer renda ou auxílio; ou com os também ACTs do Ensino de Jovens e Adultos nos presídios (cerca de 300) que estão impedidos de lecionar e prestes a serem demitidos com o fim de seus contratos em agosto.

Na escola concreta do presente, nem o esforço descomunal dos trabalhadores da educação pode dar conta de resolver os problemas postos. O miserável  “kit merenda” fornecido à míngua pelo governo estadual, bem como o cartão merenda de ínfimos R$ 100,00 fornecido sem certeza de renovação a nível municipal, são absolutamente insuficientes para nutrir as crianças de famílias inteiras desempregadas. Na educação infantil em especial, fica claro que os professores são insubstituíveis, dado que os pais não possuem formação e demais condições para administrar domesticamente as atividades pedagógicas. O resultado desta combinação é fatal: níveis estratosféricos de evasão, com o governo estadual gabando-se de parcela dos alunos frequentarem os ambientes virtuais ainda que sem qualquer assiduidade.   

Os trabalhadores da educação não adoecem só pelo coronavírus, adoecem por todas as facetas da exploração, pelos ambientes insalubres de trabalho, pelo uso da modalidade ACT com vistas a diminuir custos e pagar a ilegítima dívida. Adoecem, ainda, porque são impedidos de gozarem o necessário descanso. Somam-se assim aos mais fragilizados, ameaçados diretamente pela lotação da UTIs. Mais do que nunca, é necessária a organização dessa parcela da classe trabalhadora, com a retomada radicalizada e combativa de um verdadeiro sindicalismo docente, sem o qual não pode haver perspectiva de melhora.


Fontes:

O professor acaba ultrapassando sua jornada por sensiblidade ao aluno: http://www.sintrasem.org.br/Default/Noticia/12947/teletrabalho-na-educacao-imposicao-aumenta-sobrecarga-da-categoria

O Governo de Santa Catarina irá congelar a folha de salários dos servidores públicos estaduais devido à crise do coronavirus: https://www.nsctotal.com.br/colunistas/renato-igor/governo-de-sc-vai-congelar-folha-de-pagamento-dos-servidores; https://www.sinte-sc.org.br/Noticia/10342/consideracoes-sobre-a-resolucao-10-do-grupo-gestor-em-relacao-a-direitos-funcionais-e-remuneratorios-dos-servidores-publicos

Antecipação do recesso escolar para estudantes: https://www.sc.gov.br/noticias/temas/coronavirus/coronavirus-em-sc-governo-do-estado-estabelece-sistema-de-trabalho-para-atividades-escolares-nao-presenciais

3 mil presos sem aula, 300 professores ameaçados: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2020/07/22/sc-tem-ao-menos-3-mil-presos-sem-estudar-por-causa-da-pandemia-professores-temem-por-empregos.ghtml

A secretaria estadual estima que pelo menos 60% dos 540 mil alunos estejam fazendo as atividades online diariamente e que cerca de 75% tem usado a ferramenta para atividades não presenciais on-line, mesmo que não todos os dias: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2020/05/21/educacao-em-sc-tem-obstaculos-nas-atividades-remotas-durante-pandemia-dificil-entender-conteudos-dizem-alunos.ghtml

http://www.consed.org.br/central-de-conteudos/educacao-estadual-de-santa-catarina-entrega-alimentos-a-alunos-beneficiados-pelo-programa-bolsa-familia

http://jornalceleiro.com.br/2020/05/governo-de-sc-se-posiciona-sobre-kits-de-alimentacao-nas-escolas-estaduais/

http://www.sintrasem.org.br/Default/Noticia/12960/teletrabalho-na-educacao-falta-de-orientacao-sobrecarga-e-corte-de-direitos-

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