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Vitória da direita tradicional e derrota da frente ampla em Florianópolis: análise sobre as eleições de 2020

A reeleição de Gean Loureiro expressou em Florianópolis a vitória da direita tradicional nas eleições de 2020. Com 53,46% dos votos válidos, ainda em primeiro turno, Gean conquistou um segundo mandato nas urnas mesmo em meio à escândalos políticos que não encontraram reverberação na população em geral. Pelo contrário, a vitória se deu em absolutamente todos os bairros da cidade, sendo que quanto mais popular o local, maior a adesão ao prefeito reeleito.

De outro lado, a frente ampla encabeçada por Elson teve queda expressiva de votação quando comparamos o resultado de agora com o de quatro anos atrás. Se na eleição de 2020 conquistamos 42.778 votos reunindo a totalidade dos partidos relevantes do bloco progressista em uma frente, na eleição de 2016 a soma de votos de Elson (PSOL) e Angela Albino (PCdoB/PT) havia sido de 61.687 votos. Uma queda significativa de 18.909 votos. Mesmo o PSOL sozinho em 2016, fez 51.106 votos, mostrando que a mera soma de forças em uma aliança eleitoral não necessariamente representa expansão em termos de votação.

Assim feito, mais do que analisar números eleitorais, exercício pobre e que revela pouco por si mesmo, é preciso interpretar o cenário da derrota política e eleitoral que colhemos em Florianópolis. Ao contrário de um resultado isolado, este é expressão evidente e agravada da derrota nacional que a atual hegemonia liberal dentro da esquerda sofreu, com poucas exceções, de cima a baixo do Brasil.

O imbatível Gean Loureiro?


Para aqueles que correram a cidade fazendo campanha e conversando com a população, desde a primeira semana foi possível notar uma aceitação imensa da candidatura de Gean, especialmente nos setores mais populares da cidade. Um clima de reeleição, portanto, era sentido desde o início da campanha. Passado todo o processo, o atual prefeito resistiu quase que sem arranhão aos seus quatro anos de ataque aos servidores públicos municiais, ao seu envolvimento pregresso com escândalos de corrupção – Gean chegou a ser preso pela Operação Chabu em fevereiro deste ano – e ao escândalo envolvendo relações sexuais na prefeitura de Florianópolis que estourou em meio ao processo eleitoral. Completou o quadro com uma vitória em primeiro turno, esvaziando completamente a candidatura de Angela Amin, não abrindo espaço para o crescimento de Pedrão e circunscrevendo a frente ampla em uma derrota eleitoral em todos os bairros da cidade.

Pode-se chegar a conclusão, desta forma, que Gean já abriu o processo eleitoral praticamente eleito, o que não é de todo errado. O cenário nacional esteve amplamente favorável a ele. Olhando de norte a sul do país, o resultado demonstrou a continuidade dos projetos políticos que já ocupavam as prefeituras. O velho sistema político tradicional elegeu prefeitos em praticamente todas as capitais e também no interior.

O que venceu, portanto, foram os velhos esquemas do dinheiro e do poder, que operaram no seio da classe trabalhadora – a maioria social – quando essa se encontra desorganizada e sem horizonte de superação da ordem capitalista. Se 2018 representou a onda do “vamos mudar tudo que está aí”, dois anos depois vigorou o voto orientado pelas obras públicas feitas em ano eleitoral – o tão famoso “asfaltaço” –, pela cooptação das lideranças comunitárias em função de cargos comissionados na prefeitura e pela troca de favores – grande parte das vezes ilícitos. Em resumo, uma eleição municipal amplamente tradicional, daquelas do “arco da velha”, onde o poder da máquina estatal joga seu peso.

Claramente, o frisson causado pela aparição de Bolsonaro em 2018, o candidato antissistema que hipocritamente falou que “não tinha medo de fazer as mudanças necessárias no nosso país”, ficou para trás. Comandou a apatia política em torno das eleições, onde a pandemia foi um fator agravante, mas não seu fato gerador. A classe trabalhadora, desanimada diante de uma década de crise e de um governo federal que prometeu, mas não promoveu uma mudança sequer nesse quadro, mostrou-se, via de regra, apática e desinteressada nas eleições. Tal dado se expressa na continuidade dos projetos políticos que estamos tratando, mas também aparece em uma taxa gigantesca de abstenções, votos brancos e nulos, que ficou em quase 34% em Florianópolis.

Na aparência, isso poderia representar a derrota de Bolsonaro em 2020, tal qual vem sendo reiteradamente veiculado dentre os militantes da esquerda. Entretanto, não se enganem, se a eleição aponta a continuidade dos projetos políticos assegurada pela força do uso da máquina estatal, Bolsonaro segue no comando da maior máquina de todas: o executivo federal. Tanto é assim que não podemos esquecer do pico de popularidade de Bolsonaro neste ano quando da liberação do auxílio emergencial. 81 milhões de brasileiros auferiram o mísero valor de R$ 600,00 mensais, que em alguns casos até mesmo elevou a renda de trabalhadores antes desempregados ou amplamente precarizados.

Desta forma, a maior força de Gean Loureiro foi justamente esta apatia da classe trabalhadora e a incapacidade da frente ampla mobilizar sua base em torno de um programa. Com a apatia baseada no fato real de que o atual sistema político não resolve nada do abismo social em que vivem, trabalhadores e trabalhadoras resolveram ficar ao lado daqueles que já estavam no comando do Estado. Fortaleceu tal quadro o fato de estarmos diante de um sujeito político que, se eticamente pode nos causar repúdio, politicamente se mostrou um fortíssimo candidato. Esteve ativa e incansavelmente envolvido em ações de marketing durante todos os anos desde sua eleição de 2016 e cooptou todos os aparelhos da mídia burguesa para seu projeto. Tanto foi assim que nenhum espaço foi aberto para a expansão das candidaturas Angela Amin e Pedrão. Sem apresentar qualquer diferenciação substancial ao atual prefeito – pelo contrário, representavam o mesmo projeto ultraliberal – foram simplesmente atropelados. 

Desta forma, a única candidatura de fato capaz de apresentar oposição à reeleição de Gean era justamente a encampada por Elson e pela frente ampla. No entanto, tal potencialidade não se exerceu e o clima de vitória do atual prefeito verificado já na primeira semana de campanha não sofreu qualquer inflexão durante o processo eleitoral, se consolidando no resultado do dia 15 de novembro.

Frente ampla ou programa político?

Se a expectativa em torno da tão propagada maior frente ampla progressista montada em todas as capitais do Brasil foi enorme, grande também foi a decepção tanto com a campanha quanto com o resultado eleitoral auferido. Não se trata aqui de menosprezar o trabalho dos camaradas Elson e Lino, já que seria um grande erro cair em personalismo no momento de fazer a avaliação de uma campanha que, em absolutamente todas as ocasiões, é construída coletivamente. Tanto Elson quanto Lino foram militantes exemplares na campanha, levando-a em frente com dedicação máxima do início ao fim. A própria corrente da qual faço parte – Revolução Brasileira –, corroborou a escolha do professor Elson como o candidato do PSOL à prefeitura em 2020. Consideramos, desde o início, que Elson era o detentor do máximo de acúmulo possível para representar o partido no processo eleitoral.

Entretanto, também nós da Revolução Brasileira afirmamos, no momento em que o debate sobre a construção de uma frente ampla tomou conta das energias de todos os atores envolvidos com a preparação do processo eleitoral, que o fundamental não era a frente, mas sim o programa a ser apresentado para a cidade. Tal fato não foi ouvido, sendo que o PSOL ficou os últimos 45 dias que antecederam a abertura do processo eleitoral totalmente paralisado em meio a denúncias públicas e pressões morais vindas de bolhas de redes sociais fechadas em si mesmas. O partido, ao invés de avançar na construção do seu programa, envolvendo e engajando inclusive a própria militância e a juventude da cidade neste processo, ficou preso em discussões de cúpula apartadas da população em geral.

Enquanto Gean corria a cidade falando com a população e inaugurando asfaltaços e reformas de praças, postos de saúde, creches e escolas, os dirigentes partidários da frente ficaram fechados em videoconferências e entrevistas com baixíssima audiência para além das “figurinhas carimbadas” da esquerda da cidade. Enquanto Gean articulava uma horda de candidatos a vereador para dar sustentação ao seu projeto, os partidos que compuseram a frente não conseguiram criar espaços para articular e instrumentalizar os 106 candidatos a vereador que poderiam ser a linha de frente da campanha. Mesmo após definida a frente ampla – no último dia de registro da chapa –, não houveram espaços de debate e articulação para além do evento inaugural de lançamento da candidatura e, quando houveram plenárias da campanha, essas não se mostraram abertas a ouvir a militância.

Obviamente, a pandemia foi um cenário incontornável que dificultou a criação desses espaços. Entretanto, o principal disso tudo foi uma clara priorização da construção de peças publicitárias para preencher o segundo maior horário de TV entre as candidaturas a prefeito – um dos fatores que contou para a formação da frente ampla. E aqui um novo ponto decisivo: o programa de TV da frente pouco incidiu para virar o jogo contra o favorito Gean Loureiro. Primeiramente, o próprio horário de TV, em si mesmo, com seus parcos 10 minutos de duração, mostrou no Brasil inteiro uma enorme fragilidade para fortalecer posições de oposição. Em segundo lugar, a ausência de um programa adequado jogou um peso enorme para tornar o horário inócuo como peça de agitação.

Isso ocorreu pelo fato da frente adotar um programa de caráter normativo e desprovido de combate. “A saúde deveria ser assim, a educação assim, a pauta das minorias assim…”. Em nenhum momento se fez a análise concreta da situação concreta, utilizando de radicalismo – pegar as coisas pela raiz – nesta tarefa. Por quais razões não se expos os vídeos das greves dos servidores municipais onde Gean Loureiro respondeu com spray de pimenta e gás lacrimogêneo? Por que não expor a situação real de um trabalhador perdendo horas e pagando caro no transporte público? Por qual motivo não expor a situação de jovens que voltam para a casa dos pais por não terem emprego e não conseguirem pagar o aluguel? E por fim, e principalmente, qual o motivo de não haver qualquer embate direto com o atual prefeito e sua base de apoio?

Somente tal tipo de programa poderia reverberar nas redes sociais e ativar a militância para a campanha. Nesse sentido, mesmo dentro do PSOL, o grau de mobilização conquistado pela candidatura de Boulos em São Paulo foi superior ao conquistado em Florianópolis. E lá, o mais importante, não houve qualquer frente ampla, mas sim uma aliança entre PSOL, UP e PCB.

Nós, da Revolução Brasileira, temos discordâncias enormes com o programa da “revolução solidária” expressado por Boulos e Erundina – especialmente em relação às ilusões que o mesmo reproduz em torno da ordem burguesa, sua aproximação com setores empresariais e a forma como não repudia processos de privatização como as Organizações Sociais, as OS –, entretanto, a candidatura de São Paulo foi combativa, dentro do âmbito de uma campanha eleitoral. Exemplo disso foi a capacidade de fazer oposição ao atual prefeito Covas, vinculando-o sistematicamente ao “Bolsodória” e, diante de posições firmes, conseguir trazer para si o apoio ativo da juventude. Dentro deste quadro e sendo beneficiado pela paralisia do PT diante de suas disputas internas burocráticas, Boulos chegou ao segundo turno.

Obviamente, tal campanha não foi suficiente para vencer a eleição e superar o isolamento da esquerda liberal que já havia se configurado em 2018 – a votação de Haddad para presidente em São Paulo foi praticamente a mesma de Boulos no segundo turno. Entretanto, o caminho do combate apareceu como único possível e deixou claro que o que definirá o futuro do PSOL não é a sua capacidade de promover alianças em uma frente ampla, mas sim a de construir um programa político radical a ser defendido diante da classe trabalhadora e da juventude. Tanto foi assim que, em todo o território nacional, o estabelecimento ou não de frentes eleitorais não foi o que definiu o resultado, mas sim o posicionamento do partido em torno dos temas políticos.

O caminho do PSOL em Florianópolis para os próximos anos

O bloco progressista, que saiu unido nesta eleição, nitidamente perdeu força na cidade. Não apenas na votação majoritária, mas também na eleição para vereadores, caímos em votação. De 5 vereadores eleitos em 2016 (Marquito, Afrânio, Lela, Lino e Renato da Farmácia – que depois pulou do barco), caímos para apenas 4 em 2020 (Marquito, Afrânio, Carla Ayres e Cíntia da Coletiva Bem Viver). Com isso, o atual prefeito reeleito tem ampla maioria parlamentar, sendo que mesmo os vereadores eleitos pela chapa de Angela Amin, na reta final, tal como ratos em um naufrágio, adentraram no barco vitorioso de Gean Loureiro. Para além disso, a perda do mandato de Lino Peres, qualitativamente, se expressa em uma perda importante de pontes que o movimento popular da cidade tinha com o parlamento.

Diante desta ampla base de apoio, Gean, alinhado ao projeto ultraliberal da classe dominante brasileira, imediatamente já apontou para a continuidade do seu projeto de liquidação e privatização do serviço público da cidade. O combate em torno da COMCAP, duas semanas após as eleições, já é expressão do que viveremos em 2021. Uma prefeitura totalmente vinculada ao projeto de retirada de direitos trabalhistas e sociais; entreguista do patrimônio público para empresas privadas ou OS; e ativa na disputa ideológica que enfraquece a luta política organizada e fortalece a caridade cristã por meio de intervenções pontuais e compensatórias. Gean representa justamente o que será o teor da oposição liberal de direita ao governo Bolsonaro: alinhamento nas pautas estruturais e diferenciação por ter sensibilidade diante da miséria social e do tema das identidades. Para quem discorda disso, achando que tais pautas são monopólio da esquerda, basta olhar as redes sociais do atual prefeito e ver por onde passa a disputa ideológica que estamos envolvidos. 

Diante deste combate que já está posto, resta saber qual será o papel do nosso partido. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que mesmo adotando uma estratégia equivocada na construção de uma frente sem programa político claro, o PSOL se mantém como a principal força parlamentar na capital catarinense. Em paralelo a isso, o partido carece enormemente de organicidade diante da classe trabalhadora da cidade. Somos depositários, via de regra, de uma simpatia difusa no seio da classe média assalariada e proprietária, mas que ainda não se transformou em militância partidária organizada e engajada. Já a adesão da juventude ao partido é fato importante de ser analisado. Caso não soubermos encaminhar um processo interno de formação política, além da criação de espaços de debate e deliberação que ultrapassem as direções partidárias, a juventude que se soma ao partido continuará difusa e sem enraizamento nas lutas reais da cidade – o que já ocorre atualmente com parte da militância.

O PSOL de Florianópolis, desta maneira, precisa desburocratizar sua atuação e se inserir decididamente na luta organizada dos trabalhadores da cidade em conflito com Gean Loureiro. Somente deste processo real, e não de articulações de cúpula, é que podemos forjar um programa para ser defendido em qualquer processo político que seja, incluindo as eleições. Mais do que um partido que abrace as causas representadas por mandatos parlamentares, precisamos que ele cumpra sua função de formar e dirigir seus militantes no rumo da conquista da maioria social. Sentido este que só pode ser encontrado não dentro da ordem capitalista, mas sim na luta pela superação desta ordem, na luta pela revolução brasileira.

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Um comentário em “Vitória da direita tradicional e derrota da frente ampla em Florianópolis: análise sobre as eleições de 2020

  1. Cleidson Valgas Responder

    Excelente análise. Sem hipocrisia e apontando claramente um caminho viável e capaz de produzir resultados positivos concretos para a classe trabalhadora. Chega de conversa mole e de táticas conciliatórias ou que não considerem a raiz dos problemas. É tempo de revolução em Florianópolis.

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